Tem um email guardado na minha caixa de entrada que eu releio com uma frequência meio constrangedora. Ele tem três linhas. Chegou de um endereço terminado em upenn.edu, escrito pelo homem que fundou a Psicologia Positiva.
“It was a pure accident, with Mihaly having the last word on this territory. And in my opinion, Work, Love and Play are the primary domains.”
— Martin Seligman, fundador da Psicologia Positiva
Em português: foi um puro acidente, com Mihaly tendo a palavra final nesse território. E, na opinião dele, Trabalho, Amor e Play são domínios primordiais.
Deixa eu te contar que pergunta provocou essa resposta.
A pergunta que eu adiei por anos
Quando a Psicologia Positiva foi fundada, no fim dos anos 1990, ela organizou o florescimento humano em cinco eixos. A sigla virou conhecida: PERMA. Emoções positivas, engajamento, relacionamentos, significado, realização.
O Flow entrou nesse esqueleto com honras: é o coração do “engajamento”. O Play não entrou. Em canto nenhum.
E isso me incomodava por um motivo que não é opinião, é cronologia: o Flow nasceu dentro do Play.
Estudei numa especialização onde Mihaly Csikszentmihalyi e o próprio Seligman foram professores. Toda vez que eu esperava o Play aparecer no modelo, ele não estava lá. Então perguntei direto. A resposta veio no mesmo dia. E não fui eu quem chamou de acidente. Foi o fundador do campo.
Como o oceano foi removido do mapa
Dá pra reconstruir o apagamento ano a ano. São fontes primárias, verificáveis.
- 1971. Csikszentmihalyi publica “An Exploratory Model of Play”. A palavra flow aparece dentro de um modelo de Play. O artigo termina com uma promessa: “Play is coming.”
- 1990. Sai o livro Flow. O subtítulo com a palavra Play evaporou. Primeira apagada.
- 1998–2000. Fundam a Psicologia Positiva. O PERMA é desenhado. O Flow entra como eixo. O Play não. Segunda apagada, a que ficou.
O Flow é a onda. O Play é o oceano.
Mihaly viu Flow em cirurgiões e professores e concluiu que o Flow era o conceito amplo. Acredito que aí mora um equívoco fino: ele confundiu a atividade com o estado. O cirurgião entra em Flow porque, naquele momento, a cirurgia é Play para ele. A mesma cirurgia, virada rotina burocrática, não produz Flow nenhum.
Ele não descobriu que o Flow era maior que o Play. Descobriu que o Play era maior do que se imaginava.
Por que isso não é só história da ciência
A gente construiu o mundo do trabalho inteiro sobre o Flow. OKRs, dashboards, gamificação: é a receita do Flow montada com precisão. Só que dá pra produzir um estado que se parece com Flow sem nenhuma das condições internas que o tornam saudável. Flow sem escolha, que prende e drena e não restaura nada.
Desconfio que boa parte do que a gente chama de burnout é exatamente isso.
Por isso costumo dizer que o Flow se alcança e o Play se recupera. Porque ele não foi esquecido. Foi tirado.
Documentei a história inteira num manifesto de 44 páginas, gratuito: manifesto.lucasfreire.com.br
Em 1971, dois pesquisadores terminaram um artigo com uma promessa: “Play is coming.” Meio século depois, com a confirmação do Seligman na mão, faço a única correção que esse artigo me autoriza:
O Play nunca foi embora. A gente é que parou de olhar.

